quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

VELHO LOBO

Está completando 80 anos um dos maiores exemplos de pertinácia e força de vontade que já vi e conheci. Até nisso é teimoso. Numa idade em que maioria só se ocupa de seu joguinho de dominó, esse cidadão ainda bota a cara prá apanhar, e continuando a fazer aquilo que sempre fez, e fez muito bem, diga-se de passagem.
MARIO LOBO JORGE ZAGALO, é o nome da fera.
Desde que começou no futebol, sempre teve uma estrela especial guiando seus passos.
Sempre foi contestado, pois jogava como ponta recuado, numa época em que os pontas jogavam avançados.
Sua convocação para a Copa de 58 foi contestada pela Imprensa, pela torcida, e por quem mais falasse algo sobre futebol... Acontece que o titular Pepe, que era o grande nome da posição na época, se machucou... e o titular foi quem? Ele, Zagalo. E deu conta do recado. Foi um dos grandes nomes daquela grande Seleção (saudade dos tempos em que tínhamos uma Seleção Brasileira...).
Passaram-se 4 anos, chega a Copa de 62, no Chile... O nome para a ponta esquerda quem é? Pepe, claro. O que aconteceu? Pepe contundiu-se, claro. Quem jogou? Zagalo, claro. Novamente com grande destaque. O garoto sempre teve estrela.
Mais 4 anos, vem a Copa de 66. Nem Pepe e nem Zagalo. Resultado? Um prenúncio dos tempos atuais. Uma seleção que ninguém conhecia, e da qual ninguém se lembra mais.
Mais 4 anos... Copa de 70. O técnico da Seleção Brasileira é João Saldanha, que com muita competência consegue montar uma excelente Seleção Brasileira. Acontece que o temperamento de Saldanha faz com ele seja afastado da Seleção. Quem é chamado? Claro... só podia ser Zagalo, que com sua estrela enorme conquista o tricampeonato mundial. Só ele e Pelé podem se considerar legítimos tricampeões mundiais. Participaram das três Copas conquistadas pelo Brasil.
Na Copa de 74, estranhamente sua boa estrela falhou, e perdemos aquele jogo para a Holanda. Teria havido uma falha de comunicação com Alguém lá em cima? A mesma falha teria ocorrido novamente em 98, na França? Por que não foi feita a manutenção de seu sistema de ligação?
Claro que 1994 a comunicação não falhou... ou quem vocês pensam que desviou o chute do Baggio?
Grande Zagalo, Velho Lobo, envio-lhe os mais sinceros parabéns... Devo salientar que em todas suas conquistas, sempre tive que morder minha língua, pois sempre critiquei suas convocações. Julgo-me agora com o direito de dar-lhe um grande abraço, daqueles de estalar costelas... e principalmente me diga aqui baixinho... qual é o número de contato que lhe trouxe tanta sorte? Você sempre foi abençoado pela sorte, e continua sendo. Essa sua disposição e amor pela vida, amigo Lobo, é comovente. Ver a dedicação que vc dedica à sua profissão, amigo Lobo é super estimulante. Realmente, no seu caso, a idade é uma benção.PARABÉNS MÁRIO LOBO JORGE ZAGALO.
SALAVERRY, Marcial. http://www.detrivela.com.br/cronicas/

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Estamos Prontos...















Não é por nada não,
não querendo me aparecer ja me aparecendo,
mas o nosso tem rodas e espelho retrovisor, tá?

sábado, 3 de dezembro de 2011

O QUE REALMENTE ACONTECEU

Para encerrar de uma vez por todas a questão, eis o que realmente aconteceu no domingo, 12 de julho, antes de o Brasil entrar em campo para decidir a Copa do Mundo. Todas as outras versões dos fatos são incorretas ou fantasiosas.

11h - Os jogadores acordam normalmente, como todos os dias. Dunga vai no quarto de cada um e o derruba da cama.

11h15 - Zagallo convoca uma reunião para tratar da estratégia que usarão contra a Noruega. Ninguém lhe dá atenção. Zico lembra a Zagallo que o jogo será contra a França.

11h30 - Café da manhã. Todos parecem descontraídos. Há a habitual guerra de coalhada, vencida por Roberto Carlos. Dunga pede voluntários para limpar uma clareira atrás da concentração de pedras e tocos de árvores, mas acaba indo sozinho. Ronaldinho recebe um telefonema da Adidas, dizendo que seqüestrou a Suzana Werner. Zagallo volta para a cama.

12h - Almoço. Todos estranham a mudança do pessoal da cozinha, e do menu. As suspeitas crescem quando um dos escargots servidos ao Ronaldinho tenta fugir do prato mas cai, com evidentes sinais de envenenamento, antes de chegar muito longe. O escargot é atendido pelo Dr. Lídio, que diagnostica estresse e autoriza a sua volta para o prato de Ronaldinho.

13h - Descanso. Os jogadores vão para os seus quartos, ignorando uma convocação do Zagallo para estudar tapes dos últimos jogos da Croácia, para não serem surpreendidos. Júnior Baiano pede um dos livros do Leonardo emprestado e pergunta se o Schopenhauer é com figurinha. Isto parece afetar estranhamente Ronaldinho, que tenta esgoelar Roberto Carlos. Ninguém intervém e alguns até o incentivam. Ronaldinho só pára com a chegada de Ricardo Teixeira com a notícia de que a Nike comprou a CBF, pretende redimensioná-la, investindo em outras áreas, e quer perder a Copa para sinalizar ao mercado que está abandonando o futebol.

14h30 - No quarto, Roberto Carlos raspa a cabeça de Ronaldinho e nota um pequeno dardo espetado na sua nuca. Ronaldinho diz que pensou que fosse uma mordida de mosquito e os dois não dão maior atenção ao fato.

15h17 - Roberto Carlos acorda da sesta e vê Ronaldinho caminhando no teto.

15h20 - Depois de tentar, inutilmente, puxar Ronaldinho para o chão, Roberto Carlos vai procurar ajuda. Encontra Dunga no corredor, fazendo embaixada com uma escrivaninha. Os dois correm para o quarto e descobrem Ronaldinho de pé em cima da cama, coberto de pêlos, rosnando e com o chapéu do Napoleão na cabeça. Chegam correndo César Sampaio, Cafu, Aldair e Júnior Baiano mas nenhum deles consegue impedir que Zidane seja o primeiro a entrar no quarto.

15h42 - Depois de examinar a situação, o Dr. Lídio recomenda repouso e muito líquido e receita duas aspirinas e um calmante para Roberto Carlos.

16h05 - Em pânico, César Sampaio enfia o dedo na boca e tenta desenrolar a língua de Zé Carlos, até ser convencido de que ele fala assim mesmo. Zagallo acorda da sesta e, ao ser informado do ocorrido, pergunta: “Que Ronaldinho?”

18h52 - Ronaldinho é levado para um hospital francês, onde é substituído por um sósia.

20h30 - O sósia de Ronaldinho assegura à comissão técnica que pode jogar. Intrigados com o fato de o jogador estar falando com um forte sotaque francês, a comissão ouve dos médicos a explicação de que aquilo é comum em casos como o do Ronaldinho, seja ele qual for.

20h50 - A seleção entra em campo com o sósia do Ronaldinho, que não joga nada. O Brasil perde o jogo e a Copa.


VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CR
ÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.do. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

NO PAÍS DO FUTEBOL

Juvenal ouriço aproximou-se de um vendedor parado à porta de uma loja de eletrodomésticos e perguntou:

― Qual desses oito televisores os senhores vão ligar na hora do jogo?

― Qualquer um – disse o vendedor desinteressado.

― Qualquer um não. Eu cheguei com duas horas de antecedência e mereço uma certa consideração.

― Pra que o senhor quer saber?

― Para já ir tomando posição diante dele.

O vendedor apontou para um aparelho. Juvenal observou os ângulos, pegou a almofada que o acompanha ao maracanã e sentou-se no meio da calçada.

― Ei, ei, psiu – chamou-o um mendigo recostado na parede da loja – como é que é, meu irmão?
― Que foi? – perguntou Juvenal.

― Quer me botar na miséria? Esse ponto aqui é meu.

― Eu não vou pedir esmola.

― Então senta aqui ao meu lado.

― Aí não vai dar para eu ver o jogo.

― Na hora do jogo nós vamos lá pra casa.

― Você tem TV a cores?

― Claro. Você acha que eu fico me matando aqui pra quê?

Juvenal agradeceu. Disse que preferia ficar na loja onde tinha marcado encontro com uns amigos que não via desde a final da copa de 78. O mendigo entendeu. E como gostou de Juvenal, lhe deu o chapéu onde recolhia esmolas. Juvenal, distraído, enfiou-o na cabeça.

― Não, não. Na cabeça não.

― Por que não?

― Já viu mendigo usar chapéu na cabeça? Deixe-o aí no chão. Sempre pinga qualquer coisa.

Aos poucos o público foi aumentando, operários, vendedores, contínuos, vagabundos e às 15h45 já não havia mais lugar diante das lojas de eletrodomésticos. Os retardatários corriam de uma para outra à procura de uma brecha. Alguns ficavam pulando atrás da multidão tentando enxergar a tela do aparelho.

― Quer que eu lhe ajude? – perguntou um cidadão já meio irritado com um contínuo pulando rente às suas costas.

― Quero.

― Então me diz onde é o seu controle da vertical.

― Controle da vertical, pra quê?

― Pra ver se você pára de pular aqui nas minhas costas.

As lojas concentravam multidões. As calçadas da cidade, que já são poucas, desapareciam completamente. Em jogos da seleção brasileira, durante a semana, cresce bastante o número de atropelamentos porque o pedestre é obrigado a circular pelas ruas. Além disso, os motoristas ficam muito mais ligados no rádio do que no trânsito.

Na porta da loja onde estava Juvenal, havia umas 200 pessoas do lado de fora e somente uma do lado de dentro: o gerente. Até os vendedores da loja já tinham se bandeado afirmando que assistir um jogo atrás da televisão não é a mesma coisa que vê-lo atrás do gol. Quando a bola saía entravam os comentários dos torcedores.

No início do segundo tempo, um cidadão que não se interessava por futebol (um dos 18 que a cidade abriga) foi pedindo licença à galera e com muita dificuldade conseguiu entrar na loja. O gerente foi ao seu encontro: “o senhor deseja algo?”

― Um aparelho de televisão.

― Por que o senhor não leva aquele?

― Qual?

― Aquele que está ligado ali na porta.

― É bom?

― O senhor ainda pergunta? Acha que haveria 200 pessoas diante dele se não tivesse uma boa imagem?

― Bem…

― E não é só isso – completou o gerente aproveitando a euforia do público com um gol do Brasil – que outro aparelho transmite emoções tão fortes?

― Essa gritaria toda foi diante do aparelho?

― Lógico. Esse é o novo televisor AP-007 dotado de controle de emoção. Só este televisor pode levá-lo do choro convulsivo à completa euforia.

― É mesmo? E se eu desejar vê-lo sentado quietinho na poltrona?

― Também pode, mas é aconselhável desligar o botão da emoção, se não o senhor não vai conseguir ficar quietinho na poltrona.

O cidadão convenceu-se. Disse que ia levá-lo. O gerente, precavido, pediu-lhe para ir à porta da loja apanhá-lo. O cidadão não teve dúvidas. Ignorando aquela massa toda diante do seu aparelho, foi lá tranquilamente e cleck. Desligou-o.

O que aconteceu depois eu deixo por conta da imaginação de vocês.


NOVAES, Carlos Eduardo.
CRÔNICAS 6. São Paulo: Ática 2007. (Coleção Para gostar de ler).

domingo, 27 de novembro de 2011

CHOQUE CULTURAL

Todos ficaram preocupados quando o Márcio e a Bete começaram a namorar porque cedo ou tarde haveria um choque cultural. Márcio era louco por futebol, Bete só sabia que futebol se jogava com os pés, ou aquilo era basquete? Avisaram a Bete que para acompanhar o Márcio era preciso acompanhar a sua paixão e ela disse que não esquentassem, iria todos os dias com o Márcio ao Beira Mar, se ele quisesse.

- Beira Rio, Bete...

Naquele domingo mesmo, Bete estava com Márcio no Beira Rio, pronta para torcer ao seu lado, e quase provocou uma síncope em Márcio quando tirou o casaco do abrigo.

- O que é isto?!

Estava com a camiseta do Grêmio, em marcante contraste com o vermelho que Márcio e todos à sua volta vestiam. Desculpou-se. Disse que pensara que se pudesse escolher uma camiseta que combinasse com a roupa e...

- Está bem, está bem – interrompeu o Márcio. – Agora veste o casaco outra vez.

- Certo – disse Bete, obedecendo. E em seguida gritou “Inter!”, depois virou-se para o Márcio e disse: - O nosso é o Inter, não é?

- É, é.

- Inter! Olha, eu acho que foi gol!


- O jogo ainda não começou. Os times estão entrando em campo.

Bete agarrou-se ao braço de Márcio.

- Você vai me explicar tudo, não vai? Gol de longe também vale três pontos?

- Não. Vale dois. O que que eu estou dizendo? Vale um.

Mas Bete não estava mais ouvindo. Estava acompanhando um movimento no gramado com cara de incompreensão.

- Pensei que em futebol se levasse a bola com o pé.

- É com o pé.

- Mas aquele lá está levando embaixo do braço.

Márcio explicou que aquele era o juiz e que estava levando a bola embaixo do braço para o centro do campo, onde iniciaria o jogo. Não, os outros dois não estavam ali para evitar que tirassem a bola das mãos do juiz, como no futebol americano. Eles eram os auxiliares do juiz. O que os auxiliares faziam?

- Bom, quando um dos auxiliares levanta a bandeira, o juiz dá impedimento.

- E o que auxiliar faz com o impedimento?

Márcio suspirou. Foi o primeiro dos 117 suspiros que daria até o namoro acabar duas semanas depois. Explicou:


- Os auxiliares sinalizam para o juiz que um jogador está em impedimento, isto é, está em posição irregular, impedido de jogar, e o juiz apita.

- Meu Deus!

Márcio olhou para Bete. O que fora?

- O juiz apita?! – perguntou Bete, com os olhos arregalados.

- É. O juiz sopra um apito. Aquilo que ele tem pendurado no pescoço é um apito.

- Ah.

Bete sentiu-se aliviada. Por alguns instantes, a ideia de um homem que apitava, sabia-se lá por que mecanismo insólito, quando lhe acenavam uma bandeira, parecia sintetizar toda a estranheza daquele ambiente em que se metera, por amor. Ele não apitava. Soprava um apito. Era diferente.

Mas Bete notou, pela cara do Márcio quando ela disse “Ah”, que estava tudo acabado.



VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

sábado, 26 de novembro de 2011

FUTEBOL DE RUA

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim:

DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pêra. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no golo.

DAS GOLEIRAS – As goleiras podem ser feitas com, literalmente, o que estiver à mão. Tijolos, paralelepípedos, camisas emboladas, os livros da escola, a merendeira do seu irmão menor, e até o seu irmão menor, apesar dos seus protestos. Quando o jogo é importante, recomenda-se o uso de latas de lixo. Cheias, para agüentarem o impacto. A distância regulamentar entre uma goleira e outra dependerá de discussão prévia entre os jogadores. Às vezes esta discussão demora tanto que quando a distância fica acertada está na hora de ir jantar. Lata de lixo virada é meio golo.

DO CAMPO – O campo pode ser só até o fio da calçada, calçada e rua, calçada, rua e a calçada do outro lado e – nos clássicos – o quarteirão inteiro. O mais comum é jogar-se só no meio da rua.

DA DURAÇÃO DO JOGO – Até a mãe chamar ou escurecer, o que vier primeiro. Nos jogos noturnos, até alguém da vizinhança ameaçar chamar a polícia.

DA FORMAÇÃO DOS TIMES – O número de jogadores em cada equipe varia, de um a 70 para cada lado. Algumas convenções devem ser respeitadas. Ruim vai para o golo. Perneta joga na ponta, a esquerda ou a direita dependendo da perna que faltar. De óculos é meia-armador, para evitar os choques. Gordo é beque.

DO JUIZ – Não tem juiz.

DAS INTERRUPÇÕES – No futebol de rua, a partida só pode ser paralisada numa destas eventualidades:
a) Se a bola for para baixo de um carro estacionado e ninguém conseguir tirá-la. Mande o seu irmão menor.
b) Se a bola entrar por uma janela. Neste caso os jogadores devem esperar não mais de 10 minutos pela devolução voluntária da bola. Se isto não ocorrer, os jogadores devem designar voluntários para bater na porta da casa ou apartamento e solicitar a devolução, primeiro com bons modos e depois com ameaças de depredação. Se o apartamento ou casa for de militar reformado com cachorro, deve-se providenciar outra bola. Se a janela atravessada pela bola estiver com o vidro fechado na ocasião, os dois times devem reunir-se rapidamente para deliberar o que fazer. A alguns quarteirões de distância.
c) Quando passarem pela calçada:
1) Pessoas idosas ou com defeitos físicos.
2) Senhoras grávidas ou com crianças de colo.
3) Aquele mulherão do 701 que nunca usa sutiã.
Se o jogo estiver empate em 20 a 20 e quase no fim, esta regra pode ser ignorada e se alguém estiver no caminho do time atacante, azar. Ninguém mandou invadir o campo.
d) Quando passarem veículos pesados pela rua. De ônibus para cima. Bicicletas e Volkswagen, por exemplo, podem ser chutados junto com a bola e se entrar é golo.

DAS SUBSTITUIÇÕES – Só são permitidas substituições:
a) No caso de um jogador ser carregado para casa pela orelha para fazer a lição.
b) Em caso de atropelamento.

DO INTERVALO PARA DESCANSO – Você deve estar brincando.

DA TÁTICA – Joga-se o futebol de rua mais ou menos como o Futebol de Verdade (que é como, na rua, com reverência, chamam a
pelada ), mas com algumas importantes variações. O goleiro só é intocável dentro da sua casa, para onde fugiu gritando por socorro. É permitido entrar na área adversária tabelando com uma Kombi. Se a bola dobrar a esquina é córner.

DAS PENALIDADES – A única falta prevista nas regras do futebol de rua é atirar um adversário dentro do bueiro. É considerada atitude antiesportiva e punida com tiro indireto.

DA JUSTIÇA ESPORTIVA – Os casos de litígio serão resolvidos no tapa


VERÍSSIMO
,Luis Fernando. CRÔNICAS 6. São Paulo: Ática 2007. (Coleção Para gostar de ler).

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ANTENA LIGADA

Troquei meu televisor em branco e preto por um televisor em cores com controle remoto, para facilitar a vida de meus filhos, que agora, sabe como é, época de provas, estão se virando mais que pião na roda. Imaginem que outro dia um professor teve a coragem de mandar meu filho gavião-da-fiel fazer um trabalho sobre o Sócrates.
Fiquei uma arara.
Em todo caso, apanhei a revista Placar e recomendei que o garoto consultasse os arquivos esportivos aqui da Folha e do Jornal da Tarde. Não é por ser meu filho, mas o guri caprichou do primeiro ao quinto.
Tirou zero.
Puxa, assim também é demais. Resolvi levar um papo com o professor, ver se não era perseguição. O professor foi muito gentil, porém ninguém me tira da cabeça que ele é palmeirense disfarçado de sãopaulino. Garantiu-me que havia ocorrido um equívoco: O Sócrates que ele queria era um craque da redonda que tomou cicuta. Essa é boa. Por que não avisou antes? Como é que vou adivinhar que o homem jogava dopado?
Me manguei, mas o professor percebeu meu azedume. Disse que ia dar uma nova chance.
Falou e disse.
Preveni meu garoto que ficasse de orelha em pé, lá vinha chumbo. Dito e feito. O professor, deixando cair a máscara alviverde, deu uma de periquito campineiro e pediu um trabalho completo sobre o Guarani.
Deixa que eu chuto, falei a meu filho. Pode contar comigo na regra três. Eu mesmo cuido da pesquisa.
Peguei a escalação completa do Guarani, botei o Neneca no gol, fiz a maior apologia do time da terra das andorinhas. Pra me cobrir e não deixar nenhum flanco desguarnecido, telefonei pro meu amigo Antonio Contente, que transa em assuntos culturais e conexos, como seja a imprensa, e pedi por favor que ele me mandasse uma camisa oito autografada. Diretamente de Campinas e pelo malote.
Não é pra falar, mas o trabalho escolar ficou um luxo.
Sem falsa modéstia, estava esperando pro meu filho no mínimo aprovação cum laude e placa de prata, para não dizer medalha de honra ao mérito.
Pois deu zebra.
Começo a desconfiar que o tal professor me armou uma arapuca e entrei fácil, como um otário. O homem deve ser primo do Dicá. Sabem o que o mestre fez? Hem? Querem saber? Deu outro zero pro meu filho. O pior é que não devolveu a camisa oito autografada.
Essa não deixei barato. Fui de peito aberto, às falas.
- Ilustre – eu disse -, com o perdão da palavra, mas que diabo de safadeza vossa senhoria anda arrumando pro meu garoto gavião-da-fiel? Então eu perco tempo, pesquiso, consulto a história gloriosa da equipe campineira, faço a maior zorra com o time do Brinco da Princesa, e o garoto ganha cartão vermelho?
Que grande cínico! O homem me olhou com aqueles olhos de olheiras – acho que tem almoçado e jantado mal, sei lá dizem que professor padece um bocado-, coçou a cabeça, murmurou:
- Foi o senhor que fez a lição?
Fiquei meio sem jeito:
- Bem, fazer não fiz. Dei uma orientação didática. Pai é para essas coisas…
Ele não se comoveu. Ao contrário, foi até rude:
- Se aceita um conselho, para de dar palpite na lição de casa de seu filho. O senhor não conhece nada do Guarani.
Falar isso na minha cara! Tive de agüentar calado. Nunca soube que no diacho do time campineiro figurasse uma dupla de área chamada Peri e Ceci. E com essa constante mudança de técnicos, como podia sacar que o técnico atual é o Zé de Alencar?
- Tá bem – eu disse -, não vamos brigar por tão pouco. O professor pode dar outra oportunidade ao menino?
Deu. O professor quer agora os capítulos completos de um romance, por coincidência com o mesmo nome do time de Campinas: o Guarani. É qualquer coisa com índio sioux que de repente se vê obrigado a salvar uma mulher biônica das águas da enchente. Deve ser novela em cores. Mas só para complicar a vida de meu filho, o professor não revelou o horário. Porém desta vez ele não me ferra. Pela dica do enredo, que deixou escapar, deve ser mais uma dessas sucessões de cenas de violência que a gente é obrigado a engolir todas as noites na televisão. Estou de antena ligadona, meu chapa.


DIAFÉRIA, Lourenço. CRÔNICAS 6. São Paulo: Ática 2007. (Coleção Para gostar de ler).

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O TÉCNICO

Todo brasileiro é um técnico de futebol frustrado. Deus é brasileiro. Logo, Deus é um técnico de futebol frustrado? Como Deus tudo pode, é provável que Ele seja o verdadeiro e eterno técnico da seleção, e os mortais que assumem a função apenas suas fachadas. Todos os técnicos da seleção brasileira seriam, na realidade, prepostos de Deus, o que explica o seu ar arrogante e a sua recusa em aceitar nossos palpites. Só a certeza de terem uma delegação divina explica que os técnicos da seleção ignorem, sistematicamente, os conselhos dos que entendem de futebol mais do que eles – nós – e se julguem os donos da verdade. Nenhum ainda confessou que recebe orientações diretamente de Deus, mas isso está implícito na sua soberba.

Que Deus é o técnico vitalício do Brasil pode ser provado, e não apenas pela quantidade de Copas que vencemos e pela nossa superioridade incontestada no futebol. As próprias derrotas do Brasil são da responsabilidade de Deus, para não dar na vista e manter a ficção da sua neutralidade. E Deus, nas alturas, está na posição que todos os técnicos consideram a ideal para ver o jogo. Mas como é onipresente pode estar lá em cima e falando com o seu auxiliar do lado do campo ao mesmo tempo, sem a necessidade de walkie-talkie ou celular.
Se Deus precisa disfarçar, de vez em quando, que é o veradeiro técnico do Brasil, seus delegadosna Terra nem dempre tem esse cuidado. O ar de auto-satisfação do Zagalo que tanto irrita seus colegas, o resto da população, é na verdade uma falha no disfarce. Está na cara do Zagalo que ele se reúne periodicamente com Deus para tratar da estratégia da seleção e que
nós podemos estrilar à vontade, porque ele só deve satisfações a seu Chefe.

* * *

Agora: dizem que a perspectiva de enfrentar o Uruguai deixa até Deus preocupado. "Essa nem Eu controlo", costuma dizer o Todo-Poderoso, encurvado sobre os seus esquemas.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

ASSALTOS INSÓLITOS

Assalto não tem graça nenhuma, mas
alguns, contados depois, até que são
engraçados. É igual a certos incidentes de
viagem, que, quando acontecem, deixam a
gente aborrecidíssimo, mas depois, narrados
aos amigos num jantar, passam a ter sabor de
anedota.
Uma vez me contaram de um cidadão que
foi assaltado em sua casa. Até aí, nada
demais. Tem gente que é assaltada na rua, no
ônibus, no escritório, até dentro de igrejas e
hospitais, mas muitos o são na própria casa.
O que não diminui o desconforto da situação.
Pois lá estava o dito-cujo em sua casa,
mas vestido em roupa de trabalho, pois
resolvera dar uma pintura na garagem e na
cozinha. As crianças haviam saído com a
mulher para fazer compras e o marido se
entregava a essa terapêutica atividade,
quando, da garagem, vê adentrar pelo jardim
dois indivíduos suspeitos.
Mal teve tempo de tomar uma atitude e já
ouvia:
— É um assalto, fica quieto senão leva
chumbo.
Ele já se preparava para toda sorte de
tragédias quando um dos ladrões pergunta:
— Cadê o patrão?
Num rasgo de criatividade, respondeu:
— Saiu, foi com a família ao mercado, mas
já volta.
— Então vamos lá dentro, mostre tudo.
Fingindo-se, então, de empregado de si
mesmo, e ao mesmo tempo para livrar sua
cara, começou a dizer:
— Se quiserem levar, podem levar tudo,
estou me lixando, não gosto desse patrão.
Paga mal, é um pão-duro. Por que não levam
aquele rádio ali? Olha, se eu fosse vocês
levava aquele som também. Na cozinha tem
uma batedeira ótima da patroa. Não querem
uns discos? Dinheiro não tem, pois ouvi
dizerem que botam tudo no banco, mas ali
dentro do armário tem uma porção de caixas
de bombons, que o patrão é tarado por
bombom.
Os ladrões recolheram tudo o que o falso
empregado indicou e saíram apressados.
Daí a pouco chegavam a mulher e os
filhos.
Sentado na sala, o marido ria, ria, tanto
nervoso quanto aliviado do próprio assalto que
ajudara a fazer contra si mesmo.

SANTANNA, Affonso Romano. PORTA DE COLÉGIO E OUTRAS
CRÔNICAS. São Paulo: Ática 1995. (Coleção Para gostar de ler).

domingo, 13 de novembro de 2011

SEQUESTRO-RELÂMPAGO

No Brasil, sequestro-relâmpago está na moda. Na cidade de São Paulo, especialmente. São muitos e toda hora. Cada cidadão procura defender-se como pode. Alguns rezam, outros inventam artifícios para despistar os bandidos. Pertenço a este último grupo...
Para não chamar atenção dos ladrões, comprei uma Brasília antiga - uma "lata velha" - e passei a dirigi-la sem preocupação. Pensava ter encontrado a saída para livrar-me dos marginais. Afinal uma Brasília caindo aos pedaços não despertaria a atenção de criminoso algum. Engano meu! Fui vitima de sequestro-relâmpago ao estaciona-la.

Duas semanas depois, ainda traumatizado, deixei a Brasília na garagem, tirei o relógio, o tênis importado, a camisa de linho, deixei tudo em casa. Vesti-me com uma roupa velha e fui caminhando em direção ao banco. Fica a três quadras de minha residência. Além do cartão bancário, levava apenas coragem...

Nada adiantou. Ao alcançar o segundo quarteirão fui apanhado:
-É um sequestro-relâmpago - anunciou um dos bandidos, apontando-me uma arma de fogo, enquanto pessoas passavam por nós na calçada sem dar menor importância ao fato.
O outro marginal completou:
-Você é o quarto otário, hoje, mano - sendo imediatamente repreendido pelo comparsa.
É claro, não me precisava dizer que, naquele mesmo dia, tinham feito o mesmo com três outros infelizes.

Medo? Não tive! Estou ficando acostumado... Puseram-me dentro de um carro - possivelmente roubado - e quase não gastaram gasolina. O banc0 era no quarteirão seguinte. Dei a senha e o cartão para um deles, que caminhou em direção a instituição bancária, enquanto o outro permanecia no assento de trás do veículo. Tinha o revólver na cintura, sob a camisa. Sem dúvida não queria chamar a atenção exibindo a arma e, além disso, percebeu que eu não tinha como reagir, obrigado que estava a não mais olhar para trás sob pena de ser fuzilado ali mesmo.

Tudo corria como de costume, quando aconteceu o inesperado: fomos vítimas de dois outros bandidos! Chegaram furtivamente armados, um de cada lado do automóvel, anunciando o assalto quase ao mesmo tempo:"Manos, quem se mexer leva chumbo."O criminoso sentado no assento de trás do veiculo tomou um susto. Parecia alguém prestes a desmaiar. Pálido, tremia. Não me contive: comecei a rir! Não conseguia parar... Só fui convencido a faze-lo quando um cano encostou na minha cabeça:
- O meu, se não parar de rir, eu aperto o gatilho. O jeito foi conter o riso.

Os dois bandidos, digamos, concorrentes dos primeiros, entraram no veículo no banco de trás, um de cada lado. Todos naquele banco estavam armados com revólveres. Certamente sairia um tiroteio logo, porque, na primeira oportunidade, o que ficara no meio, tentaria atirar em seus oponentes. Eu não queria tiros. Então falei, apontando para o meliante do meio:"- Ele esta armado!"Prontamente, desarmaram-no. Em seguida, os dois criminosos, armas em punho, ficaram olhando fixamente para mim. Estavam perplexos. Um deles, chegou a murmurar baixinho valeu, mano! (...)

Luiz Vivas

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O verdadeiro 14bis...


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A IMPORTÂNCIA RELATIVA DAS COISAS

O futebol dos sábados no sítio do Magalhães tinha começado como uma brincadeira, uma maneira de abrir o apetite para o almoço. As mulheres ficavam na piscina enquanto os homens jogavam num campo improvisado, que não tinha nem goleira. Três, no máximo quatro de cada lado. Na hora do almoço o jogo parava. Depois o futebol não era nem assunto entre os casais.

Com o tempo, o grupo de convidados para o almoço dos sábados começou a aumentar, e o futebol também. Magalhães ampliou o gramado e colocou goleiras. Os times se repetiam e aos poucos foram adquirindo uma identidade. Não demorou muito, tinham uniforme, flâmula e até bandeira. Mesmo assim a Marta só descobriu como a coisa ficara séria quando tentou interromper uma partida porque estava atrasando o almoço e foi corrida do campo pelo marido, o Sales. Pediu o divórcio na semana seguinte, embora o Sales negasse que estivesse tentando acertá-la com um pontapé, irritado com a intromissão, já que seu time estava perdendo.

Depois foi a vez da Silvinha, que no meio de um almoço de sábado fez protesto. O futebol estava acabando com a vida social dela e do Aderbal. Na sexta, o Aderbal não queria fazer nada, dormia cedo para estar em forma para o jogo da manhã seguinte. E no sábado, depois do jogo, não tinha condições de se mexer, o que dirá fazer alguma coisa. Eles não iam mais a teatro, não iam mais a cinema, não saíam mais para jantar. Várias das outras mulheres concordaram com a Silvinha. Os homens ficaram mudos. E os do time do Aderbal olharam para ele com orgulho. Ali estava alguém com uma noção correta da importância relativa das coisas na vida de um homem. No sábado seguinte, o Aderbal apareceu sem a Silvinha.

O terceiro problema foi com a própria mulher do Magalhães. Num certo sábado, ela viu um bando de meninos seminus atravessar o gramado correndo e pular na piscina onde - não que ela fosse racista, mas francamente! - nunca entrara alguém com pele escura a não ser pela ação do bronzeador. Uma invasão! Ela já ia chamar a polícia quando o Magalhães explicou que eram os filhos do Gedeão, segurança da firma, que ele convocara para reforçar a defesa do seu time. Ela que se acostumasse, o Gedeão e os filhos estariam almoçando lá todos os sábados. Precisava do Gedeão para o meio da zaga. A mulher do Magalhães também pediu divórcio.

* * *

Hoje são quatro times de sete jogadores que disputam intermináveis torneios e copas por qualquer pretexto - a atual é a Copa Patrícia Pillar - e muitas vezes esquecem de almoçar. Numa espécie de galpão ao lado da piscina, Magalhães instalou o que se chama de “a Federação”, a sede da “Liga dos Sábados”, e é ali que estão dois painéis, um o dos “Campeões”, com fotografias dos times vencedores dos diversos torneios, e outro o das “Caídas”, com fotos das mulheres que não agüentaram. São 12. A décima segunda foto, recém-inaugurada, é da Laurita, mulher do Marco Antônio, meia-armador do time do Sales. A Laurita agüentou o que pôde mas pediu o divórcio depois que encontrou o Marco Antônio fazendo uma preleção tática para o seu time na sala do apartamento, e usando suas miniaturas de porcelana para explicar as jogadas.

H
á um terceiro painel, intitulado "Frouxos", já que "Traidores" foi considerado forte demais. Neles estão as fotos do Olimar e do Galvão, que cederam à pressão e abandonaram seus times! O Galvão ainda com o agravante de ter comunicado sua decisão de parar na véspera da Copa Trigêmeas da Playboy.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

domingo, 6 de novembro de 2011

Bolsa de homem é cooler alças...

Dr. Oculto

ZAGALLO E A POSTERIDADE

O Zagallo parece ótimo. Desejo que ele continue vivo e irritante por muitos anos. Mas chega um momento na vida de todo homem em que ele começa a pensar no que vão dizer no seu velório. Para muitos é uma situação impensável: não estar vivo logo na ocasião mais importante da sua vida. Para agradecer aos elogios, rebater as críticas, ver quem foi e quem não foi, quem chorou, quem saiu para um cafezinho, etc. Mas para outros éuma preocupação real, e estes começam a tentar organizar, da melhor maneira possível, sua própria posteridade. Não sei se o Zagallo está na mesma. Digamos que sim.

Durante toda a sua vida de técnico, Zagallo foi chamado de defensivista. Era esta anomalia: um carioca que não pensava o futebol cariocamente. Não que todos os times cariocas joguem como cariocas. Está aí o Vasco, o mais bem-sucedido dos cariocas, jogando um futebol de cuidados e aplicação, decididamente alienígena. Mas o gosto carioca é pelo futebol solto. Aquele futebol de todos os ataques de sonho que o Flamengo
já formou, que raramente davam certo ( ataques de sonho não costuman dar certo no Brasil), mas quando davam, que beleza. E o Zagallo era um anticarioca convicto e reincidente.

Não sei se foi a desastrada vitória na Copa de 94, que deixou tanta gente pensando que era melhor perder do que ganhar daquele jeito, ou se Zagallo teve sua primeira visão da sua posteridade. Talvez tenha sonhado com a própria lápide e visto apenas uma palavra sob seu nome:"Retranqueiro". O fato é que tomou providências. Anunciou que o Brasil pós-Parreira iria jogar pra frente e bonito. E é porque Zagallo não quer morrer intrigado com a sua terra que o Brasil vai só com dois volantes de contenção, ou alguém espera que Giovanni e Rivaldo ajudem muito atrás? Mas tudo bem. Todo homem tem o direito de escolher sua biografia.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Receita para 2011

*Pulei 7 ondas

*Pulei 7 vezes no pe direito e
esquerdo

*Comi 7 uvas


Continuei sendo o mesmo bob
o do ano passado.