No Brasil, sequestro-relâmpago está na moda. Na cidade de São Paulo, especialmente. São muitos e toda hora. Cada cidadão procura defender-se como pode. Alguns rezam, outros inventam artifícios para despistar os bandidos. Pertenço a este último grupo...
Para não chamar atenção dos ladrões, comprei uma Brasília antiga - uma "lata velha" - e passei a dirigi-la sem preocupação. Pensava ter encontrado a saída para livrar-me dos marginais. Afinal uma Brasília caindo aos pedaços não despertaria a atenção de criminoso algum. Engano meu! Fui vitima de sequestro-relâmpago ao estaciona-la.
Duas semanas depois, ainda traumatizado, deixei a Brasília na garagem, tirei o relógio, o tênis importado, a camisa de linho, deixei tudo em casa. Vesti-me com uma roupa velha e fui caminhando em direção ao banco. Fica a três quadras de minha residência. Além do cartão bancário, levava apenas coragem...
Nada adiantou. Ao alcançar o segundo quarteirão fui apanhado:
-É um sequestro-relâmpago - anunciou um dos bandidos, apontando-me uma arma de fogo, enquanto pessoas passavam por nós na calçada sem dar menor importância ao fato.
O outro marginal completou:
-Você é o quarto otário, hoje, mano - sendo imediatamente repreendido pelo comparsa.
É claro, não me precisava dizer que, naquele mesmo dia, tinham feito o mesmo com três outros infelizes.
Medo? Não tive! Estou ficando acostumado... Puseram-me dentro de um carro - possivelmente roubado - e quase não gastaram gasolina. O banc0 era no quarteirão seguinte. Dei a senha e o cartão para um deles, que caminhou em direção a instituição bancária, enquanto o outro permanecia no assento de trás do veículo. Tinha o revólver na cintura, sob a camisa. Sem dúvida não queria chamar a atenção exibindo a arma e, além disso, percebeu que eu não tinha como reagir, obrigado que estava a não mais olhar para trás sob pena de ser fuzilado ali mesmo.
Tudo corria como de costume, quando aconteceu o inesperado: fomos vítimas de dois outros bandidos! Chegaram furtivamente armados, um de cada lado do automóvel, anunciando o assalto quase ao mesmo tempo:"Manos, quem se mexer leva chumbo."O criminoso sentado no assento de trás do veiculo tomou um susto. Parecia alguém prestes a desmaiar. Pálido, tremia. Não me contive: comecei a rir! Não conseguia parar... Só fui convencido a faze-lo quando um cano encostou na minha cabeça:
- O meu, se não parar de rir, eu aperto o gatilho. O jeito foi conter o riso.
Os dois bandidos, digamos, concorrentes dos primeiros, entraram no veículo no banco de trás, um de cada lado. Todos naquele banco estavam armados com revólveres. Certamente sairia um tiroteio logo, porque, na primeira oportunidade, o que ficara no meio, tentaria atirar em seus oponentes. Eu não queria tiros. Então falei, apontando para o meliante do meio:"- Ele esta armado!"Prontamente, desarmaram-no. Em seguida, os dois criminosos, armas em punho, ficaram olhando fixamente para mim. Estavam perplexos. Um deles, chegou a murmurar baixinho valeu, mano! (...)
Luiz Vivas
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