domingo, 6 de novembro de 2011

ZAGALLO E A POSTERIDADE

O Zagallo parece ótimo. Desejo que ele continue vivo e irritante por muitos anos. Mas chega um momento na vida de todo homem em que ele começa a pensar no que vão dizer no seu velório. Para muitos é uma situação impensável: não estar vivo logo na ocasião mais importante da sua vida. Para agradecer aos elogios, rebater as críticas, ver quem foi e quem não foi, quem chorou, quem saiu para um cafezinho, etc. Mas para outros éuma preocupação real, e estes começam a tentar organizar, da melhor maneira possível, sua própria posteridade. Não sei se o Zagallo está na mesma. Digamos que sim.

Durante toda a sua vida de técnico, Zagallo foi chamado de defensivista. Era esta anomalia: um carioca que não pensava o futebol cariocamente. Não que todos os times cariocas joguem como cariocas. Está aí o Vasco, o mais bem-sucedido dos cariocas, jogando um futebol de cuidados e aplicação, decididamente alienígena. Mas o gosto carioca é pelo futebol solto. Aquele futebol de todos os ataques de sonho que o Flamengo
já formou, que raramente davam certo ( ataques de sonho não costuman dar certo no Brasil), mas quando davam, que beleza. E o Zagallo era um anticarioca convicto e reincidente.

Não sei se foi a desastrada vitória na Copa de 94, que deixou tanta gente pensando que era melhor perder do que ganhar daquele jeito, ou se Zagallo teve sua primeira visão da sua posteridade. Talvez tenha sonhado com a própria lápide e visto apenas uma palavra sob seu nome:"Retranqueiro". O fato é que tomou providências. Anunciou que o Brasil pós-Parreira iria jogar pra frente e bonito. E é porque Zagallo não quer morrer intrigado com a sua terra que o Brasil vai só com dois volantes de contenção, ou alguém espera que Giovanni e Rivaldo ajudem muito atrás? Mas tudo bem. Todo homem tem o direito de escolher sua biografia.

VERÍSSIMO, Luis Fernando. A ETERNA PRIVAÇÃO DO ZAGUEIRO ABSOLUTO : AS MELHORES CRÔNICAS DE FUTEBOL, CINEMA E LITERATURA . Rio de Janeiro: Objetiva 2001.

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